Onde esta a Direita? O novo obscurantismo nacional (V)
É claro que a hegemonia ideológica do cenário político atual não se formou da noite para o dia. Ela resulta de pelo menos duas décadas de combate no plano das idéias por parte da intelectualidade esquerdista, um enorme contingente de fabianos e gramscianos, frankfurtianos, neo-paganistas verdes, e marxistas culturais de modo geral, com o adminículo dos já rarefeitos mas infatigáveis marxistas-leninistas, que “ocuparam os espaços” destinados a provê-las ao público e a seus mandatários. Na grande mídia, com exceção de um ou outro local um pouco mais democrático – a página de opinião da Folha de São Paulo é um exemplo – domina a presença desse exército ideológico maciço.
A tarefa que se nos impõe neste momento, portanto, é lançar mão às armas e iniciar um contra-ataque a partir daqueles mesmos “espaços”, de modo a que pouco a pouco se façam conhecidas as alternativas à Weltanschauung cultural-marxista introjetada na alma dos brasileiros, principalmente os de classe média e alta. A missão é árdua mas urgente. E na verdade a situação já foi muito pior. Dizer que já não existe uma reação digna de nota seria ignorar os valorosos esforços que afloram e repercutem por meio de alguns institutos, de publicações, e, claro, dos muitos blogs, especialmente por parte de liberais, do pessoal da escola mengeriana, dos randianos, e mesmo de algum contingente mais tímido de conservadores, burkeanos, chestertonianos e scrutonianos (entre os quais me incluo).
Onde está a Direita? O novo obscurantismo nacional (IV)
Desde a redemocratização do país, não houve movimento de organização partidária consistente por parte das forças conservadoras-liberais, que tiveram de assistir, acuadas, à progressiva conquista, pela esquerda, da maior parte das instâncias da política nacional. Com a ascensão do PT, a esquerda conseguiu inclusive abalar a velha tese do personalismo como traço típico do sistema político-eleitoral brasileiro. O PT tornou-se uma verdadeira bandeira partidária e angariou um eleitorado disposto a votar menos na pessoa dos candidatos do que na legenda (essa é aliás a “fidelidade partidária” verdadeiramente importante, e que, no caso do PT, viria a se fragilizar visivelmente com os episódios do “mensalão” e da demissão de vários quadros importantes daquele partido). Enquanto isso, as poucas organizações políticas da direita, quando não se retiraram da vida político-partidária, venderam seus restos de representatividade por pratos de lentilha à esquerda hegemônica. Indaga-se, por exemplo, que outra lógica, exceto a da disputa por cargos, teria feito com que o então “Partido Liberal”, supostamente defensor de idéias liberais, se aliasse ao PT – um partido manifestamente anti-liberal – oferecendo-lhe o candidato a vice-presidente.
O fato é que hoje a direita não existe como força política reconhecível. O próprio termo “direita” ainda está associado, na cabeça de gente menos ilustrada, com ditadura, governo de generais, atos institucionais, e outros aspectos tristes duma época que felizmente deixamos para trás. Quem por aqui se declare de direita incorre num faux pas, algo próximo do escandaloso, quiçá temerário. E, acima de tudo, há uma profunda e imperdoável ignorância a respeito do alcance do ideário direitista, que se restringe, na mente da nossa intelectualidade, às propostas do liberalismo – estigmatizado apesar de nunca ter sido aqui posto em prática de modo consistente – com exclusão do conservadorismo que em nações mais civilizadas se discute amplamente e que foi a bandeira dos melhores estadistas do século XX, como De Gaulle e Adenauer.
A direita hoje no Brasil não é uma proposta. Ela se define negativamente: ela é o anti-lulismo, como aliás lembrou o colunista da Folha citado no post inicial. Esse anti-lulismo não tem nome de direita e, o que é pior, não tem candidato para as eleições de 2010.
Onde está a Direita? O novo obscurantismo nacional (III)
Creio não ser necessário insistir no que foi dito no último post, bastando lembrar que nas democracias mais civilizadas há uma direita e há uma esquerda e que, como afirma corretamente Alberto Carlos Almeida, a alternância no poder é a saúde da democracia. “L’alternance est un phénomène sain, diz Alain Peyrefitte, qui évite la sclerose“.
Em sendo assim, é evidente que se em determinado país a política é completamente dominada por uma única ala, seja de esquerda, seja de direita, algo de errado há com ela. Olharemos para o cenário político deste país e veremos um palco obscurecido, onde apenas um lado das coisas aparece. Teremos nele representada apenas uma parte dos ideais, das convicções, das aspirações do seu povo.
Portanto, quando o Presidente Lula vem a público anunciar como “grande conquista” o fato de não haver candidatos de direita para as eleições de 2010, podemos entendê-lo no seu papel de porta-voz do PT, da esquerda que governa e que pretende, como é legítimo, permanecer no poder. O que não podemos fazer é acreditar no Presidente Lula.
Não. A ausência da direita está longe de ser uma grande conquista, ela é de fato uma lamentável derrota para a democracia brasileira.
Onde Está a Direita? O novo obscurantismo nacional (II)
Convido o leitor a comigo lançar um rápido olhar sobre o panorama político-partidário de algumas nações civilizadas.
Na França, berço da dicotomia nominal esquerda x direita, a política se tem digladiado tradicionalmente entre ambas alas. Tiveram um longo período conservador inspirado pelo “gaullismo”, depois um período liderado pela esquerda de Mitterrand, e testemunharam desde meados dos anos 80 situações muito peculiares em que o Presidente e o Primeiro Ministro, um de direita e outro de esquerda, “coabitaram” como chefe de estado e de governo.
Na Inglaterra, os dois maiores partidos são o Partido Conservador, de direita, e o Partido Trabalhista (“Labour”), de esquerda. Nos últimos 30 anos, depois de quatro eleições vencidas pelos conservadores (Thatcher: 1979, 1983 e 1987; e Major:1992), temos atualmente o quarto mandato de esquerda (Brown).
Nos EUA, temos dois partidos majoritários: o Partido Republicano, de direita, e o Partido Democrata, de esquerda, que se alternam com freqüência no poder. Nos últimos 30 anos, tiveram três mandatos de direita, com Reagan (1981-1989) e Bush (1989-1993), dois de esquerda com Clinton (1993-2001), dois de direita com W. Bush (2001-2008) e atualmente governa com a esquerda de Obama.
Na Espanha, dois os principais partidos: um de direita, Partido Popular, que na década passada governou com Aznar (1996-2004); e outro de esquerda, PSOE, que atualmente governa com Zapatero.
Na Alemanha, o CDU, da democracia cristã, é o mais importante partido conservador, que recentemente reelegeu Angela Merkel; e o SPD, da social democracia, é o mais importante partido de esquerda.
No Canadá, temos majoritariamente um Partido Conservador, de direita, e dois partidos de esquerda, o “Liberal” e o “New Democratic”.
Colijo estes exemplos para demonstrar o óbvio: nos países da civilização democrática, há uma direita e há uma esquerda, as quais, a despeito da variedade de denominações, nuances, formatos e coalizões, se identificam e se reconhecem como direita e esquerda. É consenso nessas nações que a coexistência e a alternância de ambas as alas, a despeito da freqüente rivalidade entre elas, representa algo de muito saudável na sua vida política. Partidos de direita e de esquerda são os canais por onde se manifestam, respectivamente, as forças conservadoras-liberais e as forças progressistas-igualitárias, que compõem o espírito diversificado de seus povos e que refletem de certo modo as potencialidades da nossa própria alma individual: sabemos que ao longo da vida muitos de nós, senão a grande maioria, mudamos de idéia, e que podemos tomar posições ora progressistas, ora conservadoras, ora liberais, ora igualitárias. Raramente somos um monólito desde o começo ao fim da vida.
Onde Está a Direita? O novo obscurantismo nacional
No dia 16 de setembro, o Presidente Lula pronunciou no IPEA um discurso, em que observou fato de crucial importância para quem pretende entender o que se passa no atual cenário político brasileiro. Disse o Presidente que nas eleições de 2010 não haverá candidatos de direita. Disse ainda o Presidente que esta circunstância era uma “grande conquista” para o país. E finalmente, o Presidente qualificou genericamente de “trogloditas” os candidatos de direita.
Ditas por autoridade tão conspícua, estas palavras deveriam ter suscitado algum debate mais amplo e profundo a respeito do estado de coisas na política nacional e no próprio panorama das idéias vigente no país. Porque, embora o Presidente – como sabemos – não figure entre os nossos oradores mais perspicazes, naquele discurso ele acusou, posto que inadvertidamente, uma das mais graves e lamentáveis deficiências do regime democrático brasileiro. No entanto, não se viram grandes debates, pelo menos no que tange aos grandes jornais e à grande mídia.
“Onde está a Direita?”: eis o título de uma coluna de Fernando de Barros e Silva publicada na Folha de São Paulo de 16 de outubro. É com esse título que pretendemos iniciar uma série de posts a respeito da questão, título este complementado pela opinião, que entendemos bastante fundamentada, segundo a qual, não estando a direita em lugar algum, ou pelo menos não estando ela em lugar de mínima importância, vivemos um clima de hegemonia ideológica que se pode qualificar, sem exagero, de obscurantismo.
Temos um regime constitucional, democrático, erigido sobre o Estado de Direito. Não há totalitarismo, não há ditadura, não há censura, não há repressão.
Mas sim: vivemos um novo obscurantismo.