Crítica Literária x Ciência
Sobre o tema da compatibilidade entre crítica literária e ciência, observo que o Sergio Rodrigues do Todoprosa postou algo ontem que aparentemente parece ir de encontro com o que escrevi no meu último post.
E de modo mais contundente, o Pedro Sette Câmara discordou e escreveu interessantíssimas considerações a respeito. Ainda não tive tempo de redigir uma réplica, posto que já saiba por onde confutar-lhe os argumentos (alguns deles, pelo menos). Mas quero apenas adiantar o seguinte:
Depois de anos pensando que abrir um blog seria perda de tempo, já começo a suspeitar que valeu a pena. Pois se eu puder suscitar debates do nível deste que agora se abre, ou deles participar, forçando-me a meditar mais detidamente nas minhas palavras, seja para retirá-las, seja para confirmá-las, então minha iniciativa blogueira não terá sido em vão.
Ciência X Literatura: o debate está lançado.
Salvação dos estudos literários: transformá-los numa ciência?
Em artigo interessante publicado no último domingo no Boston Globe, Jonathan Gottschall reconhece que os cursos de letras estão em crise, que os estudos literários estão moribundos, esquecidos nas universidades, que a crítica literária é desprezada por todo mundo. Isto todos sabem.
Ele identifica a principal causa dessa crise: “Nós acadêmicos literários fracassamos no produzir um conhecimento mais sólido e firme a respeito das coisas que estudamos”. E sugere, como solução, o seguinte:
“Eu acho que há uma solução clara para este problema. Os estudos literários devem assemelhar-se mais às ciências. Professores de literatura deveriam aplicar os métodos científicos de pesquisa, suas teorias, seus instrumentos estatísticos, e sua insistência em hipóteses e provas. Em vez do filosófico desespero a respeito da possibilidade do conhecimento, deveriam abraçar o espírito de otimismo intelectual das ciências. Se o fizerem, os estudos literários poderão transformar-se numa disciplina em que a real compreensão da literatura e da experiência humana se acumule juntamente com a escrita.”
Eu teria muitas coisas a dizer sobre isto. Mas, para não dilatar muito a mensagem, digo apenas que a sugestão de Gottschall é manifestamente irrealizável. E a razão não é a falta de intimidade que os literatos têm com as ciências e seus métodos, como ele parece sugerir, concordando neste sentido com o que disse C. P. Snow no seu famoso ensaio sobre as “Duas Culturas”.
Não, de maneira alguma.
O motivo por que estudos literários jamais se tornarão uma ciência é intrínseco à própria natureza da literatura, que não passa de um conjunto de fatos – as obras – singulares e absolutamente irredutíveis.
A queda de uma maçã pode ser repetida mil vezes, ela cairá exatamente na mesma velocidade, com uma mesma aceleração. Por isso essas quantidades podem reduzir-se a uma ciência, a partir de hipóteses verificáveis.
Mas à literatura aplica-se o preceito aristotélico clássico: “Não há ciência dos indivíduos”. Uma obra literária é absolutamente diferente de todas as outras, não há traços perfeitamente idênticos entre duas obras, e portanto não podemos formular hipóteses a respeito delas, e menos ainda verifica-las. Podemos no máximo agrupá-las por épocas, classificá-las por gênero, comparar-lhes a estrutura e a linguagem, destrinçar-lhes o conteúdo e a mensagem.
Gottschall foi pelo caminho errado. A crise dos estudos literários não tem nada a ver com sua “acientificidade”. Tem a ver com outros problemas, mas deixo para desenvolve-los numa outra oportunidade.
Quarup e o anti-transcendentalismo da moderna literatura brasileira
No “maior país católico do mundo”, a ausência de religiosidade entre romancistas e poetas importantes do último século é fato digno de nota. Enquanto a França produziu em pencas os Bernanos, os Mauriac e os Péguys, e até a protestante Inglaterra criou a nobre linhagem que vai de Chesterton até Graham Greene, passando por C.S. Lewis e Waugh, o “maior país católico do mundo” o que foi que nos deu? Muito pouco. Um Jorge de Lima aqui, um Murilo Mendes ali… De obras-primas, só consigo pensar em Lições de Abismo de Gustavo Corção e As Horas de Katharina de Bruno Tolentino. Estou esquecendo alguma?
Temas hieráticos realmente não são o forte da nossa literatura moderna, e mesmo quando aparecem, são muita vezes abordados sob aquela concepção francamente anti-transcendentalista da alma humana, que permeia de certa maneira a nossa cultura, acentuando-se a partir dos anos sessenta, segundo a qual o pecado e a tentação não se apresentam como obstáculos ao seu pleno desenvolvimento, mas, pelo contrário, constituem aberturas para um verdadeiro auto conhecimento e quiçá para uma libertação. Longe de considerar a vida moral como um esforço ascético contra as insídias de um meio social corrupto, essa concepção preconiza que a verdadeira virtude está na libertação de todo esforço de ascese.
Quarup, o romance de Antonio Callado, é um exemplar reflexo desta postura. O protagonista Nando é um padre que nutre o sonho de estabelecer uma prelazia entre os índios do Xingu e neste percurso abandona o sacerdócio, sucumbindo, já nas primeiras páginas, ao pecado da carne. Chama a atenção no romance de Callado a indiferença, a placidez com que o padre viola, com mulheres diversas, o voto de castidade. Não há, nessa passagem, qualquer sinal de hesitação. Há inclusive quem considere a “emancipação” do padre Nando uma alegoria da emancipação prometida pelo comunismo, com que Callado simpatizava. Muitos aspectos do romance realmente apontam neste sentido. Não é um livro ruim, tem passagens bem divertidas, como aquela cena altamente psicodélica em que um amigo de Nando o leva à sua farmácia e lhe mostra a coleção de frascos medicinais antigos enquanto os dois cheiram garrafas de lança-perfume. Mas o livro peca justamente por não dar à apostasia de Nando o peso de uma escolha absolutamente crucial na vida de qualquer indivíduo que se ordenou padre.
Mas pensando bem, talvez seja precipitado esperar que nossa literatura possua mais representantes da literatura religiosa autêntica. Afinal de contas, até o ano passado, “o maior país católico do mundo” não tinha sequer um santo canonizado…
Norberto Bobbio e a dicotomia esquerda x direita
Nem mesmo nos meus primeiros passos de iniciação filosófica tive muito apreço pelos livros de Norberto Bobbio. É um escritor didático, mas anódino. Não é uma grande mente filosófica. E por vezes ele diz algumas bobagens grosseiras.
No seu livro sobre os significados da dicotomia esquerda x direita ele sugere que a oposição entre esquerda e direita representa, entre outras, a oposição “entre o homem e o mercado”.
Nada mais errado. A oposição correta é entre homem (esquerda) e Deus (direita), uma versão personalista da oposição entre imanência (esquerda) e transcendência (direita).
Se o mercado deve figurar nalguma dicotomia, será naquela entre mercado (direita) e planificação estatal (esquerda); mas nunca mercado oposto a homem.
Discordando de Paulo Francis
Outro dia puxei da minha biblioteca o Dicionário da Corte de Paulo Francis, organizado por Daniel Piza (não me lembrava de ter este livro), abri o livro a eito e deparei um monte de afirmações insólitas sob o verbete dedicado à “História do Brasil”.
Diz Francis, por exemplo: “Igreja e o Estado absolutista nasceram um para o outro”. Ora, o Estado absolutista só surgiu na época da Reforma. Antes, quando o catolicismo reinava absoluto, o que havia era justamente o contrário, a organização política centrípeta dos feudos, anti-absolutista por excelência. Este centripetismo é reflexo da doutrina de São Tomás e séculos mais tarde foi reiterada nos ensinamentos de Leão XIII sobre o Princípio da Subsidiariedade. Na realidade, a tradição da “ciência política” católica, a Doutrina Social da Igreja, fiel ao Magistério, se afasta tanto do socialismo e do fascismo – estas sim doutrinas estatais absolutistas – como do liberalismo mais puro, aquele da escola dos libertarians austríacos, pois ambos são anti-religiosos, aquele por excluir toda e qualquer religião, este por admiti-las todas. A doutrina católica busca o meio-termo aristotélico em que possa prosperar um verdadeiro conservadorismo de Estado.
Diz Francis: “A idéia do indivíduo livre e capaz de decidir o próprio destino é inequivocamente subproduto da Reforma protestante”. Permita-me discordar. O que o Livre Exame e o sola scriptura geraram de subproduto foi uma forma de imanentismo muito peculiar, essa idéia de que a liberdade individual e a verdade se opõem a qualquer coisa que vem de fora do próprio indivíduo, e a idéia de que o mediador, antes concebido como algo que pode unir a alma interior do indivíduo ao exterior, funciona como um obstáculo a essa união. É aquele papo moderno de quem diz: “Ah, eu acredito em Deus, mas não acredito em igrejas” e “eu tenho uma relação muito pessoal com Jesus Cristo”, concepções que ajudaram a implant
Francis era um ótimo crítico de arte e de música, um bom crítico literário e de cinema, mas noutros assuntos o que ele dizia era menas verdade..
E como romancista? Era nada mais que mediano.
A tardia guinada à direita de Ernesto Sabato
Hoje, o caderno Cultura do Estado de S. Paulo oferece uma crítica de Antonio Gonçalves Filho a A Resistência, livro de Ernesto Sabato composto de cinco ensaios. Diz Gonçalves Filho que “para escândalo de muitos leitores de Sabato, que sempre associaram seu nome à dialética marxista, ele escreve, em A Resistência, que o homem não é um ‘simples objeto físico desprovido de alma’, mas um animal com espírito…”, indicando que Sabato estaria abandonando o seu passado de militante comunista e adotando um discurso manifestamente direitista, em prol da religiosidade.
É extremamente sugestivo o fato de Sabato citar Nicolai Berdiaev “logo nas primeiras páginas do seu livro”. Sim, porque, embora Gonçalves Filho não o diga, Berdiaev, depois de marxista na juventude, tornou-se o Joseph de Maistre da Rússia, um autêntico reacionário que escreveu já em 1918 um ataque a Lênin e seus seguidores mais virulento que o Considérations sur la France. Entre outros parágrafos picantes, eis o que Berdiaev diz ao se dirigir aos líderes do movimento de 1917:
“C’est à tort que vous, les faiseurs de révolution, possédés par des démons, vous pensez que vous êtes des hommes créateurs et que vos actes les sont. C’est à tort que vous croyez que les époques révolutionnaires sont des époques créatrices. Vous êtes totalment privés de l’esprit créateur, vous en êtes déshérités; et vous haïssez et détruisez la création. Car celle-ci est em vérité aristocratique, elle est l’oeuvre des meilleurs. Elle ne supporte pas le pouvoir des pires, la domination de la plèbe que vous servez.”
Mas a julgar pelos trechos do livro de Sabato reproduzidos na matéria, eu confesso desconfiar da profundidade com que ele abjura o marxismo. Não digo que ele não queira fazê-lo. Mas é que para quem admite, como ele, que só “cedeu à idéia de transcendência após nove décadas de existência sobre o planeta”, torna-se muito difícil compreender o mundo de outra maneira. Se você foi marxista na adolescência, mas logo desistiu, tudo bem. Mas se você passa 90 anos da sua vida com aquela cosmovisão na cabeça, não dá muito tempo de limpá-la para receber um novo convidado.
Seja como for, o fato é que ainda não li Sobre Heróis e Tumbas de Sabato, considerado um dos maiores romances argentinos do século vinte, mas ele está na minha cabeceira e será devidamente avaliado aqui quando eu acabar de lê-lo.
Ronaldo Fenômeno e o fenômeno da ascensão social
Em lugares mais civilizados do mundo, o ideal de ascensão social não se resume ao crescimento da sua conta bancária. Ascender socialmente significa a integração do sujeito em um novo ambiente cultural, que representa para o indivíduo que ascende duas ordens de fenômenos. De um lado, significa a conquista de uma nova dignidade social, plena de privilégios, acompanhada do acesso a bens materiais.
Porém, ascender socialmente também implica a assunção de um novo conjunto de responsabilidades. Isto por uma razão simples: quanto mais alto o sujeito se eleva na pirâmide social, maior é o número de pessoas a quem ele servirá de modelo e padrão de conduta.
Toynbee, grande filósofo da história, escreveu que as civilizações entram em decadência por um processo de corrupção das elites, que se despem de suas severas responsabilidades e passam a adquirir os hábitos e os valores das classes subalternas. As grandes civilizações se mantêm apenas enquanto houver na elite a consciência dessa ameaça.
Quando vemos por exemplo o governador de New York, Eliot Spitzer, demitir-se do seu alto cargo depois de se revelarem suas ligações com prostitutas, verificamos que o sistema imunológico da elite americana ainda está suficientemente sadio para proteger-se contra as insídias dos organismos mais baixos da sociedade.
No Brasil há um problema enorme. Como a elite já está muito corrompida, aqueles que poderiam ascender socialmente, como o Ronaldo Fenômeno, encontram um ambiente cultural em que vicejam os privilégios mas claudicam as responsabilidades. O resultado é este que se imprimiu nas manchetes dos jornais dessa semana.
Pobre, pobre Ronaldo…
Abrindo a categoria “Jornais” do Contraplatitude
Um amigo meu, muito inteligente e muito católico, não lia jornais. Dizia ele que quando queria saber das últimas notícias, abria o Apocalipse de João…
Há bastante tempo eu também deixei de ler os jornais. É questão de racionamento de memória. Cada notícia lida é uma frase de Pascal ou de Bloy que você esquece, é uma passagem de Shakespeare ou de Borges que você perde, é um verso de São João da Cruz ou de Baudelaire que você deslembra. Hoje, só compro jornal aos domingos, o Estado de São Paulo, e mesmo assim apenas para ler o caderno Cultura e o Aliás. O resto eu jogo no lixo.
Mas se você não vai às notícias, elas acabam vindo a você de alguma maneira (As mais bizarras sempre chegam). E algumas dessas notícias às vezes têm uma importância maior do que a princípio deixam transparecer no seu aspecto superficial. Estas, e só estas, merecem comentário num blog como o Contraplatitude.
Abro portanto a categoria “Jornais” para comentar eventuais notícias verdadeiramente dignas de nota. Minha intenção não é tratar pessoas e fatos ao modo da crônica, mas sim elevar o ângulo visual para além do acontecimento, buscando os significados mais amplos escondidos nas efemeridades do cotidiano.
Quem é o culpado pelo crime: o criminoso ou a sociedade?
Outro dia, em reportagem recente do Estado de S. Paulo sobre seu o novo livro, no qual indaga se ainda é possível “ser de esquerda”, Bernard Henry-Levy, ao comentar os motins ocorridos na periferia parisiense em 2006, disse: “Será que estamos tão certos de que não temos nenhuma responsabilidade nesse desastre social?” E concluiu: “fazer esse tipo de pergunta é um valor de esquerda”.
É verdade. A concepção de que a responsabilidade por certos crimes não deve ser atribuída exclusivamente a seu autor individual, mas também parcialmente ao Estado e à sociedade, é indubitavelmente uma idéia difundida pelos pensadores que se colocam à esquerda do espectro ideológico.
O que eu não sabia é que esta idéia está em vias de se transformar num instituto jurídico. Foi com muito interesse que o descobri, quando um amigo me mostrou um livro intitulado Do Princípio da Co-Culpabilidade no Direito Penal, de autoria de um certo Grégore Moreira de Moura. O autor define o que se entende por princípio da co-culpabilidade:
“O princípio da co-culpabilidade é um princípio…que reconhece a co-responsabilidade do Estado no cometimento de determinados delitos, praticados por cidadãos que possuem menor âmbito de autodeterminação diante das circunstancias do caso concreto, principalmente no que se refere às condições sociais e econômicas do agente, o que enseja menor reprovação social, gerando conseqüências práticas não só na aplicação e execução da pena, mas também no processo penal” (pp. 36-37)
Extraio ainda uma outra citação feita pelo autor, que muito apropriadamente sumariza o fenômeno:
“Hoje, como valoração compensatória da responsabilidade dos indivíduos inferiorizados por condições sociais adversas, é admissível a tese da co-culpabilidade da sociedade organizada, responsável pelas condições sociais desfavoráveis da população marginalizada, determinantes de anormal motivação da vontade nas decisões da vida” (citação a Juarez Cirino dos Santos, A moderna Teoria do Fato Punível)
Aparentemente, este instituto jurídico já vigora na Argentina e no Peru, onde o juiz está obrigado, por lei, a diminuir a pena do criminoso, em função das suas “carências sociais”. No Brasil ainda não vingou, mas há alguns penalistas e criminalistas que a propugnam, a julgar pelo que li neste livro.
A diluição da culpabilidade do criminoso, a assunção de parte dela pela sociedade, eis algo que viola frontalmente os princípios mais fundamentais até então aceitos pelos sistemas penais ocidentais. Não sei se a mudança será boa ou ruim. Mas posso dizer o seguinte: é uma vitória da esquerda.
Joseph Conrad no coração do ateísmo
Eu conheço algumas interpretações de Heart of Darkness, o mais famoso livro de Conrad. Já ouvi dizer que o principal tema em Heart of Darkness é a crítica ao colonialismo, a decadência da civilização eurpoéia, a ambição desmesurada de poder, a exploração do homem pelo homem. Nenhuma delas está errada; mas todas subestimam, ou mesmo deixam escapar, um ponto fundamental, que se pode depreender do conjunto das suas idéias e dos seus personagens.
É preciso partir da cosmovisão ateísta de Conrad para conseguir captar o fundo mais amplo das suas preocupações. Conrad dizia-se um “aristocrata católico”. Mas esse catolicismo era apenas uma certidão de nascimento e não uma verdadeira profissão de fé. O catolicismo de Conrad é o catolicismo de Maurras, um catholique athée que disse de Jesus Cristo: “Je connais peu ce personnage et je ne l’aime pas”. Na realidade, Conrad era ateu. Ninguém poderá compreender-lhe plenamente a obra se não considerar que foi ele quem disse: “Faith is a myth and beliefs shift like mists on the shore”.
Dito isto, eu cito um trecho do ensaio de Vargas Llosa sobre Heart of Darkness, publicado em A Verdade das Mentiras (Arx, 2003). Diz Vargas Llosa da novela de Conrad o seguinte:
“Poucas histórias conseguiram expressar, de maneira tão sintética e subjugante como esta, o mal, entendido em suas conotações metafísicas individuais e em suas projeções sociais. Porque a tragédia que Kurtz personifica tem a ver tanto com as instituições históricas e econômicas que a cobiça corrompe, como com aquela propensão recôndita à ‘queda’, à corrupção moral do espírito humano, a isso que a religião cristã denomina pecado original…”
Vargas Llosa a meu ver chega perto de matar a charada quando diz que o livro de Conrad trata do mal e tem a ver com o pecado original. Faltou-lhe apenas atinar para o fato de que Conrad não acreditava no pecado original.[1] Heart of Darkness na realidade trata da questão do mal justamente na ausência do pecado original.
Ora, acreditar no pecado original é dar ao problema do mal a solução conceitual agostiniana de privação: o mal é a escolha de um bem menor, ou por outras palavras, a renúncia a um bem maior, e em última instância, ao maior dos bens que é Deus.
Por isso dizia Agostinho que é “preferível a tristeza de quem sofre uma iniqüidade do que a alegria de quem a comete”. Se o mal é uma privação, quem sai perdendo é o pecador e não a vítima.
Se Conrad não acreditava no pecado original, segue-se que a escolha do mal, para ele, tem certo aspecto arbitrário. Pois o homem não perde coisa alguma com o mal que pratica.
Este dilema fica bem evidente a certa altura de Heart of Darkness, quando Marlow descobre que Kurtz teria sido um homem culto, jornalista, poeta, pintor, e sobrevém então a pergunta: por que Kurtz escolheu o destino que o recolhia ao coração das trevas?[2] Entre ser um artista e pintor e ser um explorador cruel e sanguinário, Marlowe escolheria a primeira alternativa, mas a sua perplexidade decorre do fato de que a escolha tinha um caráter essencialmente discricionário.
A superioridade de Conrad está no fato de que ele entendia as conseqüências do seu ateísmo e pôde com isto transformar os respectivos dilemas em dramas consistentes, com personagens verossímeis completamente fechados naquele circuito da imanência que tanto lhe atormentava o espírito.
[1] Certo, Pelágio também não acreditava no Pecado Original. Mas Conrad desacreditava-o não como um pelagiano ou semi-pelagiano, mas por ser um ateísta convicto.
[2] O estudo de Adam Hochschild sobre o livro (“Mr. Kurtz, I presume”, revista New Yorker, 14 de abril de 1997) revela que para construir o protagonista Conrad se teria inspirado em certo Léon Rom, um eviscerado oficial belga que colecionava crânios (de suas vítimas) e era adepto da pintura paisagista e da caça de borboletas.