Contraplatitude

Literatura e outros temas culturais

Archive for the ‘Literatura’ Category

Who the Hell is Murilo Antonio Carvalho?

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O prêmio LeYa, no valor de 100.000,00 Euros (aproximadamente R$ 300.000,00), foi concedido a um brasileiro de nome Murilo Antonio Carvalho.

À parte o fato de que ninguém tem a menor informação sobre o dito cujo, eu fiquei imensamente feliz com essa notícia. Já considero o Prêmio LeYa a premiação mais interessante e mais séria que há no mundo lusófono (além de ser a mais rica). Ao conceder o prêmio a um total desconhecido, provou que a obra — somente a obra — foi objeto de avaliação.

Recebam os organizadores do LeYa os meus parabéns. Que o prêmio tenha vida longa.

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Outubro 14th, 2008 às 9:53 pm

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Notas dominicais

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Para celebrar meu aniversário, recebi ontem três casais de amigos para um almoço. Foi batuta. Iniciamos petiscando pétalas de alcachofra no azeite de ervas e salgada com fleur de sel além de um paté-mousse en croute de codorna para acompanhar o espumante. O queijo boursin foi devorado em poucos minutos. Depois, servi um clássico, um roast beef, simples e delicioso, acompanhado do bom e velho arroz com feijão e batatas chips (feitas em casa, não era Pringles não). O vinho foi um Bacalhôa impávido e colosso, com aquele final longo e sedoso, que encantou os convidados. Pediram mais e mais lhes foi dado, para acompanhar a torta de avelã e o queijo holandês, este — coitado — foi-se também em poucos minutos. Ao final, fumamos um charuto eu e um de meus amigos, que trouxera uma garrafa de Courvoisier, a qual foi devidamente aberta e servida para acompanhar o tabaco. Já eram nove horas da noite quando os últimos convidados se foram, ébrios e felizes, como eu, para dormir o sono de Baco.

* * *

Ganhei de presente a “Antologia Pessoal” de Jorge Luis Borges. Embora eu tenha dezenas de livros na fila de espera, eu não resisti ao apelo e já coloquei o Borges na minha cabeceira. Só de folhear o livro já me deu água na boca. Que Borges não tenha ganhado o Nobel ficará para sempre, sempre, sempre como uma mancha negra na história da Academia sueca.

* * *

Falando em Nobel, este ano ganhou o Le Clézio. Nunca li. Tentarei dar-lhe uma chance. Estou meio atrasado na leitura dos autores recém premiados. Quero ler o Weyergans, quero ler o Banville. Haverá tempo?

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Outubro 12th, 2008 às 2:14 pm

Virando a última página de um grande livro

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Depois de meses intercalando sua leitura com a de outros livros, virei ontem a última página de Anna Karenin. É sensacional virar a última de 900 páginas de um romance, e mais ainda quando é a última página daquele que alguns consideram o maior romance de todos os tempos. É claro que o livro merece uma “Nota Crítica”, e acho que vale separar um tempo para escrevê-la. Mas eu não consigo parar de pensar numa coisa… É que, embora o livro seja profundamente interessante, quanto mais eu leio Tolstoy mais e mais eu reforço a minha opinião: Dostoevsky é imbatível. Imbatível.

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Outubro 10th, 2008 às 11:00 pm

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Chesterton e o cristianismo de intuições (Republicado)

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Ler Chesterton é prazeroso por diversas razões. Ele tem o talento literário, a capacidade de contar histórias despretensiosas e construir personagens tão vivos e interessantes. Tem-no também como escritor de crônicas, tão bem confeccionadas que parecem aulas de filosofia em formato jornalístico.

Há, é claro, os famosos “witty paradox”, os paradoxos chestertonianos. Chesterton tinha muito acume de vista para distinguir entre duas coisas frequentemente confundidas: o bom senso e o senso comum. O que ele faz é mostrar como tantas das opiniões que em determinada época se consideravam senso comum na verdade não carregavam nenhma dose de bom senso. É o que ele demonstra, por exemplo, nas suas polêmicas com Robert Blatchford e contra as teses agnósticas de Haeckel, muito em voga na Inglaterra do início do século. (Um parêntesis: As recentes publicações de Christopher Hitchens e Richard Dawkins são apenas mais uma onda na intermitente maré ateísta e agnóstica que vive a fustigar aquelas terras).

Mas a qualidade que mais admiro se manifesta quando ele fala do Cristianismo. Aqui ele está no seu elemento. A força do seu raciocício e o alcance do seu argumento multiplicam-se várias vezes quando ele toma a peito a defesa da doutrina cristã. E é justamente a maneira como ele a defende que é tão interessante. Porque a linguagem de Chesterton vem completamente despojada do jargão dos Doutores da Igreja e da teologia dos manuais. Ele não usa conceitos; ele usa imagens. Lança mão de situações, de episódios, de narrativas, de hipóteses, tornando a leitura muito mais divertida e engraçada do que se tivéssemos lendo o Cardeal Newman.

As conclusões de Chesterton não são sentenças dogmáticas, mas insights, intuições magníficas daquilo que, nos Doutores da Igreja, se expressam por sentenças dogmáticas. Deixo-vos com este pedacinho de argumento de Chesterton deduzido contra os que defendiam, à sua época, a poligamia e o liberalismo sexual:

“Keeping to one woman is a small price for so much as seeing one woman. To complain that I could only be married once was like complaining that I had only been born once. (…) It showed, not an exaggerated sensibility to sex, but a curious insensibility to it. A man is a fool who complains that he cannot enter Eden through five gates at once”.

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Setembro 29th, 2008 às 9:57 pm

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Nota crítica: O Processo Maurizius de Jakob Wassermann (Republicado)

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O plot de O Processo Maurizius, romance de Jakob Wassermann publicado em 1928, é simples. Maurizius, condenado a prisão perpétua por ter assassinado sua mulher, já cumpria dezoito anos de pena, quando Etzel Andergast, um garoto de dezesseis anos, filho do hábil promotor que atuou na acusação de Maurizius, resolve descobrir a verdade: seria Maurizius realmente a assassino?

Sob essa simplicidade, porém, vai se desenrolar uma história terrível e fascinante, em que, à maneira daquilo a que Ernest Curtius chama “super-romances”, se apresentam ao leitor os conflitos fundamentais de toda uma época. Logo nas primeiras páginas isto já pode sentir-se: Etzel pergunta a um professor a respeito do assassinato, e o professor recapitula toda a repercussão do caso, lembrando o ambiente em que o crime ocorrera:

“A Alemanha estava, então, sob o ponto de vista moral, em presença de um dilema; era um desses momentos históricos em que se torna necessário escolher entre o levantar-se e o abaixar-se.”

E que momento histórico era este? Pode dizer-se que Wassermann [1873-1934], vivendo entre a unificação do Império de Guilherme Hohenzollern e o incêndio do Reichstag, nasceu e morreu com a Alemanha da primeira metade do século vinte. Foi esse período que Wasserman retratou na sua trilogia, da qual O Processo Maurizius é o primeiro volume.

Aterrorizante. Este período, principalmente a partir dos 1900, foi, numa palavra, aterrorizante: o acirramento dos nacionalismos, o alastramento dos ódios raciais, a propagação dos ímpetos revolucionários, a ignição dos antagonismos de classes, a infecção do militarismo, tudo evoluindo numa sulfurosa ebulição de sentimentos irracionais que rapidamente fariam soçobrar o Estado liberal, aquele moralista e disciplinado mundo burguês do século XIX.

A literatura dessa época, especialmente a de língua alemã, produziu magníficos retratos dessa decadência. Em 1901 Thomas Mann já pôde entreluzi-lo em Buddenbrooks; que é uma aula magnífica sobre o desgaste da moral privada oitocentista da Alemanha protestante; mais tarde o tema é novamente abordado em Os Sonâmbulos de Herman Broch e no Homem sem Qualidades de Musil, que descreve a decadência da sociedade vienense no período da monarquia dual.

Mas, entre os livros mais conhecidos, nenhum condensou melhor que Maurizius todos aqueles catalizadores infernais que, agindo simultaneamente, foram dar na implosão monumental de duas Guerras Mundiais. Ninguém descreveu melhor que Wassermann o clima de desespero e o pressentimento da tragédia que contaminou a Europa.

É desse pressentimento que Melchior Ghisels, personagem secundário, mas profundamente intrigante, uma espécie de Tirésias prussiano, meio sábio, meio visionário, fala ao jovem Etzel:
“Um profundo e mórbido desejo de destruição se manifesta nas fileiras daqueles com maior sensibilidade para os grandes problemas. Se não se puder remediá-lo (e tenho receio de que já seja tarde), é forçoso esperar daqui a cinqüenta anos um cataclismo pavoroso que ultrapassará em horror todas as guerras e todas as revoluções que vimos até hoje”.

O romance de Wassermann evoca toda este tormento civilizacional ao suscitar o tema fundamental da justiça, ou melhor, da terrível impossibilidade de se fazer justiça na terra. Wassermann especula sobre a injustiça individual e sua relação com a injustiça coletiva. Será que podemos ser inocentes numa sociedade injusta? Será efetivamente possível que uma sociedade seja justa? São as perguntas a que na mesma época Reinhardt Niebuhr respondia negativamente numa obra clássica da investigação ética, e a cuja negativa me parece que Wassermann concorreria, tal a densidade do pessimismo que permeia o romance.

Henry Miller, no seu estudo sobre o livro de Wassermann, bem nota que todos os personagens do romance estão carregados de culpa. Todos eles têm gigantescos pesos sobre a consciência. Mesmo o próprio Maurizius, inocente do crime que lhe imputaram, parece admitir que sua prisão não é de todo injusta. Porque Maurizius é um pusilânime, uma alma frágil que sucumbe aos menores estímulos da concupiscência e aos impulsos mais irracionais. E a condenação deste Maurizius representa menos uma imputação pessoal do que a condenação no plano coletivo. Esta analogia arde por todo o romance, como por exemplo neste trecho do discurso acusatório do Promotor Andergast (pai de Etzel) no tribunal:

“Raramente a ocasião foi tão favorável para se castigarem, na pessoa de um legítimo representante, as forças ocultas que fazem a desgraça de uma época, a morbidez de uma nação, e mesmo de um continente, e para prevenir, por meio de uma enérgica intervenção, a expansão do mal, se for verdade que não se possa curá-lo…”

De fato, todos os personagens curvam-se ao peso de uma culpa, e neste aspecto é pertinente fazer um paralelo com as origens da guerra de 1914, uma calamidade de proporções absolutamente incomensuráveis e que de certa maneira ainda não terminou (vide os Balkans dos últimos vinte anos). Quem foi o culpado pela guerra? A Áustria-Hungria? A Alemanha? A França? A Inglaterra? Ora, não quero regurgitar essa velha questão, mas a resposta de Wassermann a ela parece clara: a Europa inteira é culpada. Ninguém é inocente e ninguém está em posição de julgar.

Importa falar ainda de Waremme, ou Warschauer, o personagem mais fascinante do romance. A certa altura do romance, Waschauer indaga a Etzel se tem “alguma hostilidade sistemática contra judeus”, e faz uma pergunta crucial:

“Você pode imaginar que alguém procure enganar-se a si próprio sobre o seu nascimento?”

Essa pergunta é a chave que explica Warschauer, um judeu que renega a sua origem e se transforma em Waremme: filólogo, filósofo, poeta, aventureiro, utopista político, que “com toda paixão de que é capaz, proclama a missão mundial da Alemanha e declara que o país fatalmente morrerá asfixiado entre seus estreitos limites e perecerá sob a ação dos elementos destruidores que nutre, a não ser que se liberte por uma guerra”. Waremme é um homem de sucesso, um sedutor das platéias, que conquista a amizade dos grandes políticos e a proteção dos poderosos. Mas a transformação de Warschauer em Waremme foi um autêntico Pacto de Fausto. Waremme torna-se, na realidade, uma alma diabólica, uma sombra de si mesmo. Numa Alemanha tomada pela paixão da sua própria identidade, pela conquista da tão almejada alma nacional que os Herder e os Ficthe haviam apregoado e que Sedan e a unificação do Império haviam consolidado, Waremme é a representação mais perfeita do profundo desespero daqueles que se tornaram estrangeiros em sua terra natal. E mais que isso, em Waremme se refletem os grandes dilemas de um nacionalismo erigido em doutrina moral, loucura que atingiria o clímax naqueles tormentosos momentos do século vinte.

Otto Maria Carpeaux, grande admirador do romance de Wassermann, considerava que a profunda introspecção psicológica do livro era a contrapartida, na prosa, do simbolismo praticado por Rilke, Stefan George e Hofmannsthal na poesia da época. Mas, embora notável, a exploração do plano psicológico dos personagens em Maurizius não chega ao nível de um Tolstoy e de um Dostoevsky. O romance é intensamente dinâmico, e, ao contrário do que ocorre por exemplo em Anna Karenin, o elemento narrativo jamais se deixa eclipsar por descrições psicológicas.

Essa é aliás a última qualidade que cumpre salientar no romance: depois das primeiras 100 páginas, o livro flui como um thriller, e daí em diante é impossível abandoná-lo. O único problema é tirá-lo da cabeça depois de terminamos a leitura.

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Setembro 25th, 2008 às 9:45 pm

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Joseph Conrad no Coração do Ateísmo (Republicado)

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Eu conheço algumas interpretações de Heart of Darkness, o mais famoso livro de Conrad. Já ouvi dizer que o principal tema em Heart of Darkness é a crítica ao colonialismo, a decadência da civilização eurpoéia, a ambição desmesurada de poder, a exploração do homem pelo homem. Nenhuma delas está errada; mas todas subestimam, ou mesmo deixam escapar, um ponto fundamental, que se pode depreender do conjunto das suas idéias e dos seus personagens.

É preciso partir da cosmovisão ateísta de Conrad para conseguir captar o fundo mais amplo das suas preocupações. Conrad dizia-se um “aristocrata católico”. Mas esse catolicismo era apenas uma certidão de nascimento e não uma verdadeira profissão de fé. O catolicismo de Conrad é o catolicismo de Maurras, um catholique athée que disse de Jesus Cristo: “Je connais peu ce personnage et je ne l’aime pas”. Na realidade, Conrad era ateu. Ninguém poderá compreender-lhe plenamente a obra se não considerar que foi ele quem disse: “Faith is a myth and beliefs shift like mists on the shore”.

Dito isto, eu cito um trecho do ensaio de Vargas Llosa sobre Heart of Darkness, publicado em A Verdade das Mentiras (Arx, 2003). Diz Vargas Llosa da novela de Conrad o seguinte:

“Poucas histórias conseguiram expressar, de maneira tão sintética e subjugante como esta, o mal, entendido em suas conotações metafísicas individuais e em suas projeções sociais. Porque a tragédia que Kurtz personifica tem a ver tanto com as instituições históricas e econômicas que a cobiça corrompe, como com aquela propensão recôndita à ‘queda’, à corrupção moral do espírito humano, a isso que a religião cristã denomina pecado original…”

Vargas Llosa a meu ver chega perto de matar a charada quando diz que o livro de Conrad trata do mal e tem a ver com o pecado original. Faltou-lhe apenas atinar para o fato de que Conrad não acreditava no pecado original. Heart of Darkness, na realidade trata da questão do mal justamente na ausência do pecado original.

Ora, acreditar no pecado original é dar ao problema do mal a solução conceitual agostiniana de privação: o mal é a escolha de um bem menor, ou por outras palavras, a renúncia a um bem maior, e em última instância, ao maior dos bens que é Deus.

Por isso dizia Agostinho que é “preferível a tristeza de quem sofre uma iniqüidade do que a alegria de quem a comete”. Se o mal é uma privação, quem sai perdendo é o pecador e não a vítima. Se Conrad não acreditava no pecado original, segue-se que a escolha do mal, para ele, tem certo aspecto arbitrário. Pois o homem não perde coisa alguma com o mal que pratica.

Este dilema fica bem evidente a certa altura de Heart of Darkness, quando Marlow descobre que Kurtz teria sido um homem culto, jornalista, poeta, pintor, e sobrevém então a pergunta: por que Kurtz escolheu o destino que o recolhia ao coração das trevas? Entre ser um artista e pintor e ser um explorador cruel e sanguinário, Marlowe escolheria a primeira alternativa, mas a sua perplexidade decorre do fato de que a escolha tinha um caráter essencialmente discricionário.

A superioridade de Conrad está no fato de que ele entendia as conseqüências do seu ateísmo e pôde com isto transformar os respectivos dilemas em dramas consistentes, com personagens verossímeis completamente fechados naquele circuito da imanência que tanto lhe atormentava o espírito.

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Setembro 23rd, 2008 às 3:33 am

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Notas dominicais

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Goethe tinha horror às massas. Dizia ele: “Nada é mais repulsivo que a maioria: pois é formada de uns poucos caudilhos enérgicos, de uns pícaros que se acomodam, de uns débeis que se assimilam, e da massa que segue a corrente sem ter a menor idéia do que quer”.

Em tempos de eleição, esta frase me vem à memória constantemente. Quando lembro dos tipos — conheci alguns — que são eleitos para a câmara municipal do Rio de Janeiro, fico terrivelmente inclinado a concordar com o poeta. Uma vez a cada dois anos, o democrata que há em mim morre um pouquinho.

* * *

C. S. Lewis era um tradicionalista e tinha horror ao modernismo que imperava nos anos de sua juventide. Desagradava-lhe especialmente o prestígio de T.S. Eliot, a quem acoimava de charlatanismo intelectual. Conta-se que certa vez enviou à revista de Eliot um poema “bem nonsense, mas com um sabor de sordidez” na esperança de que Eliot o publicasse e com isso provasse a charlatanice da sua poesia e do movimento como um todo. Um hoax no estilo de Alan Sokal. Não deu certo, Eliot jamais publicou a sua armadilha…

* * *

Ontem estive na casa de um amigo para um jantar maravilhoso. Iniciamos petiscando um paté trufado e debicando uma Duval-Leroy fantástica. Como estava fresco no Rio, pôde servir-se o champagne menos gelado que de costume. Gosto mais assim. Depois, saboreamos um arroz de pato delicioso, acompanhado de um borgonha. Nas minhas preces noturnas, depois de pedir a Deus perdão pelos meus pecados (claro), permito-me rogar a Nosso Senhor que me leve depressa do purgatório ao Paraíso, mas se demorar, que me deixe pelo menos levar uma garrafinha de Borgonha… Ao final, na sobremesa (nem eu nem meu amigo somos muito fã de doces), saboreamos um queijo holandês fora de série, e depois fomos fumar um charuto com uma taça de um cognac da Domaine Ott (eu nunca tomei o famoso rosé, mas o destilado deles posso garantir, é sublime).

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Setembro 14th, 2008 às 4:33 pm

Quarup e o anti-transcendentalismo da moderna literatura brasileira (Republicado)

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No “maior país católico do mundo”, a ausência de religiosidade entre romancistas e poetas importantes do último século é fato digno de nota. Enquanto a França produziu em pencas os Bernanos, os Mauriac e os Péguys, e até a protestante Inglaterra criou a nobre linhagem que vai de Chesterton até Graham Greene, passando por C.S. Lewis e Waugh, o “maior país católico do mundo” o que foi que nos deu? Muito pouco. Um Jorge de Lima aqui, um Murilo Mendes ali… De obras-primas, só consigo pensar em Lições de Abismo de Gustavo Corção e As Horas de Katharina de Bruno Tolentino. Estou esquecendo alguma?

Temas hieráticos realmente não são o forte da nossa literatura, e mesmo quando aparecem, são muitas vezes tratados segundo aquela concepção francamente anti-transcendentalista da alma humana, peculiar à cultura brasileira, especialmente a partir dos anos 60, segundo a qual o pecado e a tentação não se apresentam como obstáculos ao seu pleno desenvolvimento, mas, pelo contrário, constituem justamente as frestas pelas quais o homem pode entrever o reino da verdadeira liberdade e a plenitude da alma. Não se considera a vida moral como um esforço ascético contra as insídias de um meio social corrupto; ao contrário, a verdadeira virtude está na libertação de todo esforço de ascese.

Quarup, o romance de Antonio Callado, é um exemplar reflexo desta concepção que descrevo. O protagonista Nando é um padre que nutre o sonho de estabelecer uma prelazia entre os índios do Xingu e neste percurso abandona o sacerdócio, sucumbindo, já nas primeiras páginas, ao pecado da carne. Chama a atenção no romance de Callado a indiferença, a placidez com que o padre viola, com mulheres diversas, o voto de castidade. Não há, nessa passagem, qualquer sinal de hesitação. Há inclusive quem considere a “emancipação” do padre Nando uma alegoria da emancipação prometida pelo comunismo, com que Callado simpatizava. Muitos aspectos do romance realmente apontam neste sentido. Não é um livro ruim, tem passagens bem divertidas, como aquela cena altamente psicodélica em que um amigo de Nando o leva à sua farmácia e lhe mostra a coleção de frascos medicinais antigos enquanto os dois cheiram garrafas de lança-perfume. Mas o livro peca justamente por não dar à apostasia de Nando o peso de uma escolha absolutamente crucial na vida de qualquer indivíduo que se ordenou padre.

Mas pensando bem, talvez seja precipitado exigir que nossa literatura possua mais representantes da literatura religiosa autêntica. Afinal de contas, até o ano passado, “o maior país católico do mundo” não tinha sequer um santo canonizado…

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Setembro 13th, 2008 às 1:28 am

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Notas literárias

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A maior das minhas decepções, a mais frustrante desilusão, no meu programa de leitura deste ano, foi a obra em prosa de Samuel Beckett. Li Molloy e Malone Meurt. Tanta gente a tecer os maiores encômios a ambos os livros, minha espectativa era de encontrar alguma coisa genuína, autêntica, desafiadora. O que li foi um texto desintessante, profundamente entediante. Note-se a falta de idéias, a falta de rumo, a esterilidade da cabeça de Beckett. Eis um excerto típico:

“Um dia contei os peidos. Trezentos e quinze peidos em dezenove horas, isto é, uma média de mais de dezesseis peidos por hora. Afinal nao é uma enormidade. Quatro peidos a cada quarto de hora. Não é nada. Nem mesmo um peido a cada quatro minutos. Nem se acredita. Vamos, vamos, não passo de um peidador medíocre, fiz mal em tocar no assunto…”

Vejam estoutro:

“A casa de Lousse não era longe. Oh!, também não era perto, estava morte de cansado ao chegar lá. Isto é, na verdade não estava. Acreditava-se estar cansado, mas é raro estar realmente. É por saber que havia chegado que me senti cansado, devria ter avançado um ou dois quilômetros a mais porque me teria sentido cansado uma hora mais tarde…”.

A impressão que ambos os livros passam é a de que Beckett tomou da pena e entregou-se, em duas séries de duzentas páginas, a um exercício de pura tergiversação, escrevendo qualquer coisa que lhe viesse à mente. E pensar que os dois livros constam da lista dos 100 melhores livros do Século XX formulada por críticos escolhidos pela Folha de São Paulo.

Nada digo da obra dramaturgica, porque só conheço En Attendant Godot e consigo ver-lhe o interesse e a relativa autenticidade. Mas a prosa de Beckett é fraca.

* * *

O Todoprosa deu pela falta de notícias a respeito do prêmio recentemente atribuído a Antonio Lobo Antunes. Diz que a imprensa brasileira fez sobre o assunto um “bruto silêncio”, e acho que essa é uma definição apropriada. Deu-me vontade de dizer impropérios sobre a imprensa brasileira. Mas pensando bem, “bruto silêncio” é melhor que qualquer coisa que eu teria a dizer. Mais não digo.

* * *

Sempre na tentativa de acompanhar o que de melhor se tem produzido na literatura contemporânea mundial, comprei recentemente o “Indecision” de Benjamin Kunkel, autor novaiorquino de seus 30 anos, cujo livro aliás foi traduzido no Brasil por Daniel Galera em edição da Cia. das Letras. “Indecision” foi a estréia de Kunkel e bem elogiado na imprensa civilizada. Descubro que o livro é sobre um sujeito acometido por um surto de indecisão crônica, que não sabe se casa com sua namorada, se larga ou não larga o emprego, etc. Aí fui na minha cópia do “L’Homme Difficile” de Hofmannsthal, peça de 1919 do escritor vienense. Diz a capa do livro: “Hans Karl Bühl, o homem difícil, não consegue decidir coisa alguma. Vindo da guerra e das trincheiras de 1914, preso na sua solidão, ele não consegue decidir se vai à câmara dos Pairs, aonde o chamam os seus títulos hereditários; não consegue decidir se pede a mão da mulher que ama; não é capaz mesmo de saber se irá ou não, à noite, à festa de seus amigos os Altenwyl…”.

Hmm…

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Setembro 10th, 2008 às 10:55 pm

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A Crise da Poesia Brasileira Hoje (Republicado)

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É verdade que a poesia atualmente padece uma rarefação crescente de público. Trata-se de um fato trágico, porque o conhecimento – mínimo que seja – dos grandes momentos da poesia universal integra o currículo obrigatório de qualquer um que se pretenda credenciar entrada na chamada “grande conversação”.

Pode creditar-se a tragédia a vários motivos; mas a pobreza de grande parte da poesia produzida no país nas últimas décadas também contribui para sua bancarrota.

Entre os problemas que talam a poesia brasileira, aquele que mais me chama a atenção é o da vernaculidade. Outro dia publicaram no Prosa & Verso uma matéria que promovia a pena de jovens poetas. Um dos poetas escreveu o seguinte:

“Uma indicação de algumas de minhas afinidades eletivas são os poetas que decidi estudar, escrever sobre (sic) e traduzir, como Marcial, Whitman, Rimbaud…”

Poetas que decidi escrever sobre? Isso não é erro de regência e subordinação. Isso nem chega a ser um erro de português. Isso é inglês!

Até início do século XX, a poesia era o fórum preferido dos cultores da língua. Não sei se tivemos flores tão belas quanto Garret, Castilho e Tomás Ribeiro, mas não se põe dúvida na superioridade vernácula de Gonçalves Dias e Castro Alves, dos poetas do Parnaso e dos seus epígonos – e meus preferidos – simbolistas, Alphonsus de Guimaraens, Cruz e Souza e Augusto dos Anjos, sobre os poetas atuais.

Em princípio poderia atribuir-se a culpa ao Modernismo, que obliterou do senso estético a exação da linguagem, embandeirando como virtude a heresia contra as formas consagradas, tão caras aos antigos mestres do versejar.

Ah, o Modernismo… Eu não sou totalmente antipático ao movimento; compreendo o ímpeto de renovação a que se entregaram seus ilustres representantes e até admiro certos produtos de seu engenho revolucionário.

Mas confesso que a esta altura o que mais desejo é ver uma onda de antimodernismo refrescar – poderia dizer restaurar – o cenário da literatura em geral e da poesia em particular. Gostaria de ver surgir a Semana do Antimodernismo, com direito a uma encíclica Pascendi do antimodernismo literário e diversos eventos culturais Antimodernistas correlatos.

De qualquer maneira, suspeito que o problema da vernaculidade em grande parte não se apresenta mais como efeito da adoção de preceitos modernistas, mas se deve à simples falta de estudo e de talento.

Written by contraplatitude

Setembro 9th, 2008 às 9:24 pm

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